Distúrbios de identidade... (parte 3)
Chega dezembro de 84, nova mudança, desta vez para Paris. Algures em novembro soubemos que a nossa mãe tinha sido contratada pela UNESCO e a sede era em Paris. E lá vamos nós de novo.
Chegamos no aeroporto de Orly no dia 9 de dezembro de 1984, um domingo de noite. Tenho lembranças claras desse dia, do trajeto de noite entre o aeroporto e a cidade onde íamos morar, do frio e do cheiro do frio. Tudo muito assustador, mas, ao mesmo tempo, excitante. No dia seguinte, a nossa mãe levou a minha irmã e eu para conhecer a nossa nova escola/liceu - Lycée International Saint de Germain-en-Laye. Estivemos lá parte do dia, burocracia da inscrição, passeamos um pouco para conhecer e... no dia seguinte, terça 11 de dezembro, Djamila e eu fomos sozinhos para a escola. Detalhe importante: por ser um escola internacional, tinha alunos de muitas partes do mundo, filhos da elite francesa, filhos de diplomatas estrangeiros e, aqui e ali, alguns alunos de origens mais humildes. E nos colocamos em modo adaptar/sobreviver. E foi muito difícil para a minha irmã. Também foi para mim, mas acho que foi muito pior para ela, até ela "se encontrar". Ironicamente, hoje, ela é a única, da família "nuclear", que ficou em França. Ou talvez não seja irônico. Talvez ela tenha ficado por lá porque deu muito dela, para poder se adaptar, pagou um preço alto e quis fazer valer a pena, de alguma forma. Eu não. Eu me lembro de ser alvo de comentários preconceituosos de outras crianças que também não eram de lá. Isso era tão incompreensível para mim. Como elas podiam fazer isso, se elas também não eram de lá? Hoje, com a distância, entendo que elas possam ter feito isso como uma estratégia inconsciente de tentarem também serem aceitas. Não justifico, apenas entendo. Se uma pessoa que é alvo de preconceito, se junta ao preconceituoso contra um terceiro, isso tende a nos aproximar do preconceituoso e a afastar de nós a possibilidade de sermos o alvo do preconceito, não é? É a mesma lógica que, imagino, faz imigrantes se tornarem contra outros imigrantes. E a França, país dos direitos humanos, colonizador de meio mundo de onde depois vieram, compreensivelmente, muitos desses imigrantes, vive nesse caldo estranho: acolhedor, desde que todo mundo que chega se ajuste de alguma forma à cultura e valores franceses. O filme "o ódio", de Mathieu Kassovitz, é uma das minhas melhores referências, em termos de explicação dessa situação sempre instável, da miscigenação cultural. Recomendo.E nunca me senti em casa em França. Talvez esteja sendo injusto. Talvez seja melhor dizer que raramente me senti "em casa", mas existiram momentos raros em que eu não me senti "peixe fora de água". O tênis (esporte) e a música me proporcionaram muitos desses momentos, sobretudo a música. Quando eu estava com os meus amigos da Everyday Sunshine - 1ª banda "séria" que tive - de fato, não me sentia estranho. Estava onde eu queria e devia estar. A questão das origens, da nacionalidade, etc, não era assunto, apenas tínhamos referências musicais parecidas. Mas eram circunscritas ao território físico e temporal. Em termos práticos, tínhamos crescido mais ou menos ao som das mesmas bandas e artistas. Lembro-me até hoje de, em alguns ensaios ou momentos sociais com os amigos/irmãos da banda, de sentir o corpo relaxado e o conforto pacífico de "ok, é assim a vida normal, então! Eu sou parte disto, não me destaco nem para bem, nem para mal. O meu sotaque não me trai, a minha cor de pele não gera nenhum incômodo nem em mim nem nos outros. Está tudo bem!". Coisa importante: isso acontecia fora de Paris, nos arredores afastados de Paris, capital da França. Nunca gostei de Paris, cidade, talvez por isso mesmo. Quase todos os meus momentos mais felizes em França, foram fora de Paris. Fui feliz nos arredores de Paris e fui feliz em Montpellier. E, com o passar do tempo, entendo que a minha felicidade em Montpellier também teve a ver com as pessoas com quem eu andava: larga maioria eram filhos de imigrantes de países africanos ou filhos franceses de famílias que tinham vivido em algum país africano e tinham saudades desse passado. Nesse contexto, eu me "misturava" bem. Mas, sem ter consciência disso o tempo todo, felizmente, quase sempre me senti "trancado do lado de fora" (referência ao filme "o ódio")Uma nota interessante sobre o período do Lycée International: recentemente, um amigo me colocou num grupo de whatsapp de antigos alunos do liceu, onde estão organizando um encontro para junho deste ano (2026). Após o entusiasmo de "rever" algumas caras conhecidas, uma vez satisfeito o saudosismo básico, veio o sabor amargo da invisibilidade. Quanto mais tento conectar com eles, mais me dou conta do quanto não temos pouco em comum, além de ter frequentado a mesma escola durante 4 ou 5 anos, há 35 anos atrás. Fui me dando conta que não participei de 99% das histórias que eles contam e se lembram. E faz totalmente sentido, dado o contexto que contei acima. E não tenho nenhuma raiva deles, de verdade. Continuo no grupo, muito por voyeurismo interessado em saber o que aconteceu com tod@s, mas também porque se eu sair, talvez materialize para eles a minha sensação de "não pertencimento". Ou pior: se sair, vão poder voltar a falar mal de mim? Ou simplesmente não vai mudar uma vírgula na história, totalmente irrelevante? Enfim. Patético.Na foto acima: a nossa turma 4ème5. Olho para a foto e me reconheço numa posição e sorriso "awkward". De todas as fotos das diversas turmas, só apareci nessa, apesar da sensção de ter participado de outras.
Depois do Lycée, a música e Montpellier, fui trabalhar na Go Sport (concorrente da Decathlon), enquanto terminava a universidade. Fui evoluindo na empresa até que, em 1997, me ofereceram a promoção para diretor de loja. Só que nesse momento eu já estava namorando e com planos de me juntar à namorada em Lisboa, a “minha cidade”, mesmo sem nunca ter morado lá, até esse momento no tempo. Nesse momento, meus pais já estavam separados, minha mãe e meu irmão já tinham se mudado para o Brasil (transferência da minha mãe para UNESCO, Brasil), minha irmã já morava fora de casa há algum tempo. Pouco ou nada me retinha em França. E em julho ou agosto de 97, se a memória não me falha, arrumei tudo que tinha de importante em 6 caixas de papelão, e fui tentar a vida em Lisboa. E, apesar de todos os pesares, foi uma das melhores decisões que tomei na vida.
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