Postagens

Mostrando postagens com o rótulo memórias

Sobre a queda do muro...

Imagem
Não é meu hábito ver filmes de realizadores desconhecidos, e muito menos filmes portugueses (de Portugal ou do Brasil), alemães, espanhóis, etc. E até mesmo o cinema Francês sofre com esse meu preconceito. Eu sei. É um preconceito mesmo. É preconceito porque nas raríssimas vezes que o fiz saí da sala de cinema com a agradável sensação de ter descoberto mais um pouco do mundo que me rodeia. E consequentemente de mim mesmo. Foi assim quando vi O tempo dos ciganos e o Arizona Dream do Kusturica , foi assim quando descobri o fabuloso 21 gramas do Iñárritu (gostos não se discutem. Prefiro de longe o 21 gramas a qualquer um dos outros que ele fez, antes e depois...), o Cidade de Deus do Meirelles , o Labirinto do Fauno do Guillermo Del Toro , o Métisse de Kassovitz , até mesmo o Reservoir Dogs do Tarantino , quando ele ainda era desconhecido e antes da fama lhe subir à cabeça. Há uns anos atrás fui ver o Das Leben der Anderen (A vida dos outros) de um realizador desconhecido chamado...

Saudades...

Imagem
 Sempre vivi a mudança com algum orgulho. O fato de ter mudado 3 ou 4 vezes de país, de cultura, de língua, sempre foi motivo de orgulho quando não foi de alguma altivez em relação ao mundo e aos que nele vivem. Mas isso tem um preço. Um preço que talvez eu pague com o tempo, à medida que vou ficando mais velho. Sempre tentei (e tento) não me apegar ao passado, não deixar que ele me impeça de crescer. Mas sou humano. E com o tempo cada vez mais tenho a sensação de que o “melhor” da minha vida já passou. O melhor tanto no sentido do melhor que eu tenho a dar, como do melhor que eu tenho a receber. Como dizia Lou Reed “it’s all downhill after the first kiss...”. E aí vem a tristeza. Parece uma luta sem sentido entre dois sentimentos antagônicos, ou para viver ainda melhores momentos, ou para ficar quieto e re-viver na memória os bons momentos que já passaram. A segunda opção acontece mais vezes do que eu quero, e a primeira opção, não consigo aplicar, por parecer forçada. A melhor pa...

Death by nostalgia

Num post anterior eu falei como tenho dificuldade em lidar com saudosismos, não foi? Salvo erro até expliquei um pouco mais no post sobre a reformação dos The Police . Hoje me disseram que os Creedence Clearwater Revival iam dar um show em Brasília. Eu respondi quase que automaticamente em tom infelizmente seco:"os sobreviventes, queres dizer". E outro amigo está feliz porque vai ver o show do septuagenário e caquético Paul McCartney como ilusão de ver os Beatles. E os Queen querem continuar sem Freddie Mercury... ha! Encontrei as palavras exatas do Zappa: "It isn't necessary to imagine the world ending in fire or ice--there are two other possibilities: one is paperwork, and the other is nostalgia. When you compute the length of time between the event and the nostalgia or the event, the span seems to be about a year less in each cycle. Eventually within the next quarter of a century, the nostalgia cycles will be so close together that people will not be able to take ...

100 palavras

100 palavras para me lembrar quem sou, do que gosto, quem amo ou amei, de onde venho, onde gostaria de ir, como gostaria de estar. 100 palavras para me explicar o vazio, apaziguar o vento ou aproveitar o passeio. 100 palavras que podem suavizar a violência do desmantelar de quase tudo, atenuar o fedor do esquecimento e pintar o vácuo com cores as cores da luz. 100 palavras para renascer outra vez e sorrir com o olhar, apreciar a chuva e a memória de dias melhores que já começaram. Tipicamente eu. Com espaço para dizer tudo e ficar sem palavras... :-P

Memórias da chuva...(3)

Imagem
Em França não me lembro ter alguma vez sentido vontade de ir tomar banho de chuva. Era aquela chuva fininha, educada, que cai durante horas com intensidade variável, suficiente para impedir qualquer atividade ao ar livre, mas não suficientemente forte para nos dar vontade de mergulhar nela. Ela não deixava de ter aquele cheiro característico – antes e depois, mistura de terra molhada, humidade, mar – sim, cheiro a peixe. Acho que foi a primeira vez que eu tinha associado uma coisa à outra. Lembro –me que eu adorava jogar tênis nas quadras cobertas do clube, com as portas laterais suficientemente abertas para deixar passar uma aragem revigorante durante o jogo. Acho que devo ter jogado o meu melhor tênis nessas circunstâncias. Momentos mágicos! Quando voltei para morar em Lisboa, tinha esperança que a chuva fosse mais africana, pela distância. Mas não foi assim. A chuva lisboeta era a mesma chuva francesa, miúda, insistente, insidiosa. Ainda por cima como quase sempre moramos em prédios...

Memórias da chuva...(2)

Imagem
Em São Vicente era diferente. É um conjunto de ilhas vulcânicas perdidas no meio do atlântico, por onde passava o comércio triangular, onde raramente chovia. E quando isso acontecia, Jesus Silva Cristo! Era uma chuva torrencial que varria tudo no seu caminho. Só me lembro ter visto chuva em São Vicente uma vez. E foi desastroso. Mandou para o chão os postes de luz, arrancou pedaços de calçada em toda a cidade, empurrou carros contra os prédios, enfim. Uma imagem de destruição. E mesmo assim algumas crianças brincavam na rua – infelizmente eu não fazia parte dessa festa – perto dos ditos postes elétricos. Quando penso nisso até tremo. Em contrapartida, depois da chuva passar, cada infinitésimo pedaço de vida verde brotava dos lugares mais inimagináveis. Era fantástico ver aquela ilha de perda vulcânica e areia preta como carvão em pó, ficar coberta de verde. Um verde brilhante e clorofílico! E sempre aquele fantástico cheiro de fresco, de novo, de terra molhada. Neste caso é mais “que s...

Memórias da chuva...(1)

Imagem
Desde que a memória me consegue levar, sempre adorei a chuva. Não existe cheiro mais apaziguador e inebriante que aquele que antecipa a chuva. Em todos os países por onde passei tenho uma lembrança boa associada à chuva. Em Bissau lembro-me do quanto antecipávamos a chuva. Nós crianças, adorávamos tomar banho de chuva. Era a melhor coisa do mundo. Os rapazes jogavam futebol no meio das ruas desertadas pelos carros, as meninas corriam embaixo das goteiras que deixavam cair enormes quantidades de água. Tanto que ás vezes doía. Lembro-me de uma vez que eu estava a voltar para casa de um futebol perto de casa, devia ter os meus 11 anos. Eram por volta das 4 da tarde e de repente ficou tudo escuro. Nunca tinha visto algo igual. Em casa estava só a minha avó e não havia eletricidade – fato normal em Bissau e muitos outros países africanos – e eu queria ir para rua tomar banho quando a chuva caísse. Era estranho porque o céu estava cinza escuro e não havia vento. Minha avó ficou com medo e nã...