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Distúrbios de identidade… (parte 4)

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 Morei em França de 84 até 97, quando me mudei para Lisboa, desta vez, por opção. Lisboa é uma das “minhas cidades”. Explicarei mais para a frente. Até ir morar em Lisboa, Lisboa tinha sempre sido A cidade que eu queria morar. Não sei explicar bem a razão disso. Acho que é devido ao impacto que a cidade teve em mim, quando conheci pela primeira vez, algures no fim dos anos 70. Quando morávamos em Bissau, eu fui a Lisboa duas vezes com a minha mãe, para consultas e tratamentos médicos. E a cidade que eu conheci naquelas viagens era - para uma criança com uns 7 a 9 anos, não me recordo bem - uma das 7 maravilhas do mundo. Acho que a diferença de “conforto” entre Bissau e Lisboa era tão grande, que eu me senti quase que literalmente em outro planeta. Então fui para Lisboa em 1997. Julho ou agosto, se a memória não me falha. E fui por amor. A decisão “principal” foi me juntar à Nice, (na altura namorada, hoje ex, mãe do meu filho). Nós até tínhamos considerado a hipótese dela ir para P...

Distúrbios de identidade... (parte 3)

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Chega dezembro de 84, nova mudança, desta vez para Paris. Algures em novembro soubemos que a nossa mãe tinha sido contratada pela UNESCO e a sede era em Paris. E lá vamos nós de novo. Chegamos no aeroporto de Orly no dia 9 de dezembro de 1984, um domingo de noite. Tenho lembranças claras desse dia, do trajeto de noite entre o aeroporto e a cidade onde íamos morar, do frio e do cheiro do frio. Tudo muito assustador, mas, ao mesmo tempo, excitante. No dia seguinte, a nossa mãe levou a minha irmã e eu para conhecer a nossa nova escola/liceu - Lycée International Saint de Germain-en-Laye. Estivemos lá parte do dia, burocracia da inscrição, passeamos um pouco para conhecer e... no dia seguinte, terça 11 de dezembro, Djamila e eu fomos sozinhos para a escola. Detalhe importante: por ser um escola internacional, tinha alunos de muitas partes do mundo, filhos da elite francesa, filhos de diplomatas estrangeiros e, aqui e ali, alguns alunos de origens mais humildes. E nos colocamos em modo ...

Distúrbios de identidade... (parte 2)

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Dia 6 de junho de 1984 chegamos a Mindelo, com a nossa avó. As 3 crianças - Pedro (5 anos), Djamila (tinha acabado de fazer 10 anos) e eu (13 anos) - e a avó materna, Pazzy. Anos mais tarde essa data se cristalizou como a data da nossa saída definitiva, mas naquela altura, eu não fazíamos ideia. Passamos as férias com os nossos tios e primos em São Vicente - aqueles mesmos que tinham saído de Bissau anos antes, pelas mesmas razões (só soubemos isso e juntamos as peças anos mais tarde). Já conhecíamos Mindelo por ter sido o nosso destino de férias de verão, umas vezes, antes dessa data. Mas desta vez foi diferente. O verão passou e quando chegou o momento de voltar para Bissau, fomos informados que íamos começar o ano letivo 84/85 em São Vicente. Como crianças que éramos, cumprimos, obviamente. E aqui, de novo, lembro-me da sensação de não-pertencimento. Neste caso não era tanto pela cor de pele, já que a população de Cabo-Verde é mais miscigenada, mais mestiça, sobretudo em São Vicente...

Distúrbios de identidade... (parte 1)

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Nasci em Bissau, Guiné-Bissau , em 1971. Pequeno país da costa ocidental africana, na fronteira sul do Senegal. Quando nasci, ainda era uma colônia portuguesa - Guiné Portuguesa . Esta parte da história é traumática e obscura, mas entendo que pouco depois do falecimento do Tiago (irmão mais velho), em outubro de 72, nos mudamos para Portugal. A independência da Guiné veio em setembro de 73, os nossos pais decidem voltar para Bissau em setembro de 74, pouco depois do nascimento da minha irmã, Djamila, em junho de 74. O meu irmão mais novo, Pedro, nasceu em Bissau em Novembro de 78. Nessa altura, a situação política já estava instável, outra vez. A nossa família é uma mistura de pessoas da Guiné-Bissau, Cabo-Verde e Portugal. O pós-independência foi complexo pela tentativa de fazer da Guiné-Bissau e Cabo-Verde um único país, governado por um único partido, o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo-Verde. Não vou me estender nisso, já existem pessoas muito estudiosas e quali...